Foto: Rogério Albuquerque
Areia Branca se despede de um dos personagens mais conhecidos e queridos de sua história. João Cego, figura folclórica e popular do município, morreu deixando um legado construído ao longo de décadas de convivência com o povo e com as ruas da cidade onde nasceu, cresceu e viveu.
Quem circulava por Areia Branca certamente já havia encontrado João pelas ruas. Com sua inseparável bolsa de palha, a bengala, o violão e, muitas vezes, um pandeiro, ele fazia da música uma das principais formas de interação com as pessoas. Gostava de cantar, conversar e, principalmente, chamar cada pessoa pelo nome. Assim, construiu amizades e se tornou uma figura conhecida por diferentes gerações.
Ainda jovem, durante a infância e adolescência, João perdeu a visão. Mesmo diante da deficiência, desenvolveu uma relação muito particular com os espaços da cidade. Caminhava pelas ruas com sua bengala e também costumava viajar para outros municípios, como Mossoró e Macau, conhecendo os caminhos e locais por onde passava.
O historiador e mestre da cultura popular Paulo César de Brito lamenta a perda e destaca a importância de personagens como João para a identidade de Areia Branca.
“Quando a cidade perde uma figura como João, que fizeram acontecer, fica mais pobre.”
Nos últimos tempos, João vivia na Casa do Idoso, onde, segundo pessoas próximas, continuava sendo uma pessoa cheia de vida. E se havia algo que ele gostava de fazer, era cantar. O violão, o pandeiro e também o cavaquinho fizeram parte de sua trajetória e de sua presença nas ruas.
Um episódio lembrado por Paulo César de Brito revela o carinho que João tinha pelo seu instrumento. Em determinada ocasião, um malfeitor levou seu violão, que João segurava com muito cuidado. A perda mobilizou pessoas da cidade, que fizeram uma campanha e conseguiram presenteá-lo com um novo violão.
João também tinha ligação com o Carnaval. Acompanhava a “Bixarada” durante os festejos e participava da folia à sua maneira, caminhando e pulando pelas ruas com sua bengala, sempre presente entre os brincantes. Diz PC.
Mais do que um homem que caminhava pelas ruas em busca de algumas moedas, João Cego tornou-se parte da paisagem humana e cultural de Areia Branca. Sua presença, seu jeito simples, suas músicas e a maneira carinhosa de tratar as pessoas ajudaram a construir uma memória que permanece entre aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.
A partida de João deixa saudade, mas também uma história que atravessa gerações. Uma história de simplicidade, amizade, música e pertencimento a uma cidade que ele conheceu como poucos e que, por muitos anos, também aprendeu a conhecê-lo.