Cortejo da Liberdade (Foto: Secom/PMM)
Cinco anos antes da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, Mossoró declarou abolida a escravidão em seu território. O feito ocorreu em 30 de setembro de 1883 e entrou para a história do Rio Grande do Norte como um dos principais episódios do movimento abolicionista no estado. Mas a história da libertação não terminou naquela data. Poucos dias depois, a então povoação de Areia Branca, que ainda pertencia ao município de Mossoró, também passou a ocupar um espaço importante nessa luta.
Em 10 de outubro de 1883, apenas dez dias após a abolição em Mossoró, foi fundada em Areia Branca a Sociedade Interservil “Os Trabalhadores do Mar”. A entidade tinha como objetivo auxiliar na libertação de pessoas escravizadas que buscassem refúgio na região e impedir o trânsito de escravizados pelo então chamado Porto e Barra de Mossoró, denominação utilizada para a área portuária de Areia Branca naquele período. A ata de fundação registra a presença de moradores da povoação e aponta Libânio da Costa Pinheiro como presidente da sociedade.
A própria ata estabelecia a proibição do embarque e desembarque de escravizados no porto. Pesquisas históricas e acadêmicas apontam que a medida representou uma ampliação da mobilização abolicionista que já havia levado Mossoró a declarar o fim da escravidão. Trabalhadores ligados às atividades portuárias passaram a se organizar para impedir o transporte de pessoas escravizadas e prestar auxílio àqueles que buscavam a liberdade.
Entre os nomes ligados a esse movimento estava André Corsino de Medeiros, trabalhador do mar e primeiro prático da Barra de Mossoró. Registros históricos o apontam como integrante de “Os Trabalhadores do Mar” e participante da rede de apoio a pessoas escravizadas que buscavam fugir pela região. A documentação também registra que a sociedade foi criada em Areia Branca justamente para impedir que o porto fosse utilizado para o embarque ou desembarque de pessoas escravizadas.
A participação de Areia Branca ajuda, portanto, a ampliar a compreensão sobre a chamada Abolição Mossoroense. O movimento não ficou restrito ao centro urbano de Mossoró: alcançou a região portuária, envolvendo trabalhadores, moradores e abolicionistas que atuavam para impedir o tráfico de pessoas escravizadas e apoiar aqueles que buscavam a liberdade. A documentação histórica sobre “Os Trabalhadores do Mar” é uma das evidências dessa conexão entre Mossoró e Areia Branca naquele período.
Um capítulo que merece ser lembrado
A história oficial costuma destacar 30 de setembro de 1883 como a data em que Mossoró se tornou livre da escravidão. Naquele ano, a Sociedade Libertadora Mossoroense havia sido criada em janeiro e, em junho, 40 pessoas escravizadas foram alforriadas. Em setembro, a Câmara Municipal recebeu a comunicação de que não havia mais escravizados registrados no município.
Dez dias depois, em Areia Branca, trabalhadores e moradores se reuniram para criar “Os Trabalhadores do Mar”, estabelecendo uma ação específica contra o trânsito de escravizados pelo Porto e Barra de Mossoró. Assim, a história de Areia Branca está diretamente ligada à etapa seguinte da mobilização abolicionista mossoroense e revela a participação do litoral nesse processo histórico.
O registro desse episódio contribui para preservar a memória da população negra e dos homens e mulheres que participaram, de diferentes formas, da luta contra a escravidão no território que hoje compreende Areia Branca. Mais do que uma lembrança isolada, a criação de “Os Trabalhadores do Mar” representa um capítulo da história local que conecta o município à campanha abolicionista que marcou Mossoró e o Rio Grande do Norte no século XIX.
Contexto importante: em 1883, Areia Branca ainda não era município independente; era uma povoação pertencente a Mossoró. Por isso, os documentos da época utilizam a expressão “Porto de Mossoró” para se referir à área portuária de Areia Branca.