A trajetória que levou a história do menino Gugu até a lista de pré-selecionados ao Oscar começou nas ruínas da antiga cidade de São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte. Durante as gravações do seu Trabalho de Conclusão de Curso no curso de Comunicação Social – Radialismo na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), em Mossoró, o então estudante Andre Araujo observou as construções que emergiam da barragem seca. A imagem de um vilarejo submerso que voltava à superfície gerou o ponto de partida para a criação do roteiro de “Feito Pipa”, longa-metragem que agora integra a lista dos seis finalistas para representar o Brasil na premiação de Hollywood.

A comissão da Academia Brasileira de Cinema anunciou os semifinalistas na quarta-feira (9). A escolha do candidato brasileiro para disputar uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional será divulgada no dia 16 de setembro. O título indicado pela comissão nacional passará depois pela avaliação dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, que selecionarão os concorrentes definitivos para a cerimônia marcada para 14 de março de 2027.

Idealizado por Andre Araujo em 2019 e desenvolvido no Laboratório de Cinema da Escola Porto Iracema das Artes, em Fortaleza, o roteiro levou cinco anos até a fase de filmagem. Sob a direção do cearense Allan Deberton — parceiro do roteirista em produções como “Pacarrete” —, o filme foi gravado em 2024 na paisagem de Quixadá, no sertão do Ceará, reunindo no elenco os atores Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos.

“Em Feito Pipa eu busquei, na minha experiência de vida, na minha vivência como cearense e como nordestino, trazer pra história um olhar fresco sobre a região, mas também trazendo pra relação entre esses dois personagens, o Gugu e a Dilma, algo que eu enxergo que existe na minha relação com a minha mãe e com a minha avó. Que é essa relação conflituosa, a relação da ‘arenga’, que a gente aqui no Nordeste chama, que é um afeto que se manifesta através da implicância.”, conta Andre Araujo.

A trama acompanha Gugu (Yuri Gomes), um garoto de 11 anos criado por sua avó, Dilma (Teca Pereira), uma professora aposentada. Com a evolução do Alzheimer da avó, o menino tenta esconder a perda de memória da idosa para evitar a mudança para a casa do pai, Batista (Lázaro Ramos), de quem é distante. A narrativa contrapõe o processo de esquecimento da avó ao amadurecimento precoce do garoto.

“O Gugu, eu até brinco que ele é a criança que eu não consegui ser, que eu não pude ser, porque é uma criança que é corajosa, afrontosa, e é nessa diferença que eu acho que existe essa potência.”

Antes da indicação pela Academia Brasileira de Cinema, “Feito Pipa” conquistou o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation KPlus do 76° Festival de Cinema de Berlim, na Alemanha. No circuito nacional, a obra venceu cinco troféus no Festival de Gramado, incluindo Melhor Atriz para Teca Pereira, Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos e o prêmio do Júri Popular. A estreia nos cinemas brasileiros está confirmada para o dia 5 de novembro.

“A gente está muito animado com toda essa corrida do Oscar, principalmente pela visibilidade que isso traz para o filme. […] Seria uma honra poder representar o Brasil com essa história que é tão brasileira, que eu acho que revela um Brasil para o Brasil.”, conclui.